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Friday, September 24, 2010

(Un)Seen University

20100921_Oxford_0049No fim-de-semana passado, a colaboração do experimento ZEPLIN-III teve uma reunião em Abington, na Inglaterra.  Logo depois era o meu shift (plantão), em que tinha de ir a mina de Boulby para tomar conta do experimento por uns dias.  Era minha primeira vez como o supervisor, o que significa que eu estava encarregado do experimento, e também dos detalhes logísticos, como chegar lá.  Isso também significa que esta foi a primeira vez que eu dirigi do lado errado da rua (os Ingleses conduzem na faixa esquerda).  Felizmente correu tudo bem, apesar dos gritos de pânico do Alastair, um colega que tinha o shift comigo (“’Esquerda! Esquerda!”, etc…).

Mas entre a reunião em Abington e o shift na mina, tinha um dia para a viagem, e aproveitei para andar umas horas por Oxford, que fica ao lado de Abington.  Quando cheguei, a cidade ainda estava coberta por uma névoa, e francamente seria uma decepção se não estivesse.  Então tive a oportunidade de ver as universidades medievais semi-escondida na névoa, com torres góticas rompendo as brumas.  Mas depois o dia clareou, a névoa se foi, e deu pra aproveitar um dia bonito e tirar umas boas fotos.  Para mim, o mais legal de ver Oxford foi o quanto ela me lembrava (quer dizer, evocava) a “Unseen University” do Terry Pratchett, a universidade dos magos do Discworld.  E não sou só eu que pensa assim, já que a Oxford também foi usada como cenário para a escola de magos do Harry Potter.

Para verem as fotos. cliquem aqui ou na foto acima.

PS.:  Uma surpresa agradável: descubri que a rede wifi que temos em Portugal, a eduroam, se estende por toda a Europa mesmo, até na Inglaterra – abri meu computador e tinha rede, sem ter que configurar nada!  Foi muito útil.

Sunday, April 11, 2010

Xenônio!

DSCF3989Depois de 6 anos trabalhando com detectores de Xenônio líquido em experimentos de detecção de matéria negra, finalmente o vi, ao vivo e a cores.  O xenônio (ou xenon, em inglês e em Portugal) só é líquido em temperaturas muito baixas.  O detector XENON10, com o qual trabalhei na Itália, usave xenônio líquido com uma temperatura de 96 graus negativos, a 1.2 atmosferas de pressão.  Como é caro (1000 dólares por litro, na época), nós só o utilizamos em equipamento muito fechados para evitar perdas, ao contrário do nitrogênio líquido, que é barato e pode ser colocado em containers abertos e com o qual estudantes de física normalmente brincam nos labs, “flash-freezing” frutas e insetos.  Em condições normais, é impossível ver o xenônio.  Entretanto, no meu shift no experimento ZEPLIN-III na Inglaterra em fevereiro, eu usei um equipamento chamado Electron Lifetime Monitor (ELM), usado para medir a pureza do xenônio, e ele tem uma pequena janela de quartzo que permitia ver o xenônio!  Afinal, é um líquido transparente, sem cor, tal como água, mas com uma consistência parecida com álcool – enfim, não era muito interessante.  Mas ainda assim foi legal vê-lo, já que graças a este líquido que temos os detectores XENON10, ZEPLIN-III e LUX, ferramentas incrivelmente potentes em um dos campos mais importantes da astrofísica atual, a busca por matéria escura.

No meu último shift no ZEPLIN-III, fiquei quase uma hora tentando tirar uma boa foto do líquido.  O desafio era manualmente focar a superfície do líquido, dentro do detector, através da janela de quartzo.  Infelizmente, a máquina fotográfica estava sem bateria, de maneira que eu podia tirar somente uma ou duas fotos antes dela morrer, e aí eu tinha que tirar as pilhas, esperar um minuto, coloca-las na máquina novamente, e tentar focar e tirar as fotos novamente – se eu pudesse ter tirado 3 fotos seguidas sem perder o foco de uma para outra, eu tinha terminado em minutos.  Também não ajudo muito que a janela do ELM era pequena (do tamanho de uma moeda de 1 real, ou 2 euros) e mal iluminada.  Mas enfim, consegui.  O engraçado é que quando meus colegas viram as fotos, eles imediatamente pediram cópias, e começaram a mandar a outros colegas – as fotos foram um sucesso com o grupo, e acabei mandando colocando-a no site do grupo.  Pelo menos a sessão fotográfica de uma hora não foi completamente perdida.  Acima está a melhor das fotos, que também mostra a beleza da engenharia do ZEPLIN, no qual grande parte dos componentes é feito de cobre e tem essa cor e design um bocado “steampunk”.

Saturday, March 20, 2010

Whitby à Luz do Dia

20100217_Whitby_in_Daylight_4805 Amanhã volto a Inglaterra, para outro shift (plantão?) com o detector ZEPLIN-III na mina em Boulby.  O detector ZEPLIN-III é um experimento de detecção direta de Matéria Negra, e deve ser feito em grande profundidade debaixo da terra para protegê-lo dos ráios cósmicos, muito abundantes na superfície.  O detector está instalado em Boulby, uma mina de sal situada 1 km abaixo da superfície terrestre.  Como a mina é ativa, nós temos que descer para o laboratório junto com os mineiros, ainda antes do Sol nascer.  Infelizmente, não temos os mesmos benefícios: enquanto eles saem as 3-4 da tarde, nós ficamos lá embaixo até as 7-8 da noite.  Por isso, quase não se vê a luz do Sol quando se tem um shift lá no inverno, quando os dias são curtos.  Mesmo quando decidimos que estamos trabalhando muito, e resolvemos que merecemos um domingo relaxado, podendo descer ao lab as 9 da manhã (tardíssimo!), não é garantia que veremos o Sol – saímos do nosso hotel em Whitby (o Esklet, à 20 minutos da mina) e nos deparamos com uma neblina praticamente opaca! Lembrem-se, isto é a Inglaterra, um dia somente nublado é considerado ótimo tempo.  Esta falta de Sol é até apropriada: afinal, Whitby é famosa como a cidade em que o Drácula chegou a Inglaterra, na história do Bram Stoker.  E considerando a neblina e as noites longas; as ruas estreitas, escuras e labirínticas; e a vista das ruínas do mosteiro na colina logo acima da cidade, a cidade parece o lugar ideal para um vampiro!

Pois, no meu último shift estive lá duas semanas, e por alguma razão é proibido fazer mais do que 12 dias diretos no subsolo (as pessoas enlouquecem?).  Então tive que tirar um dia de folga, e finalmente tive a oportunidade de ver a cidade a luz do dia.  É realmente uma cidadezinha muito pitoresca, e até estava cheia de turistas.   A cidade se espalha em volta da foz do rio Esk, e as margens do rio sobem rapidamente para um planalto, com falésia do dois lados do rio.  As vistas são muito bonitas, e o tempo bom (choveu muito pouco) fez o passeio muito agradável.  Tirei várias fotos, especialmente das ruinas do mosteiro acima da cidade, que lhe dão um ar gótico.  Não pude resistir e comprei o livro Drácula para ler – eles vendem por 2 libras lá.  Foi muito legal ler as parte que se passam em Whitby.  Apesar de se passar há mais de 100 anos atrás, a descrição da cidade e de coisas específicas (o mosteiro, a igreja com as escadarias, o porto, as pontes, a praça, os sotaques, etc…) ainda é exatamente a mesma de hoje.  Foi muito legal ver como o livro usa a geografia local e eventos reais na história da cidade na trama.  Mas fico com vergonha de estar lendo um livro de vampiro, já que vampiros estão na moda e há livros, filmes e shows de TV de vampiros para todo o lado.  Pelo menos tenho desculpa – estou lendo mais pela história do que pela estória.

Na volta pra casa, parei 40 minutos em uma estação em York (a original, não a nova), para a troca de trens.  Aproveitei o tempo para ver uma das atrações locais, uma grande catedral gótica.  Mas só deu para dar uma olhada rápida na cidade antes de ter que correr de volta para o próximo trem.

Para ver o album de fotos de Whitby (e umas poucas de York), clique aqui ou na foto acima.